
Um dia entraste pela porta de sorriso nos lábios e maço de tabaco no bolso. Derrubaste todas a muralhas que tinha construído e como se isso não chegasse “obrigaste-me” a passar novamente naquela ponte em ruínas. Era como se tudo fosse teu dentro daquela bolha que criaste e onde me envolveste.
Acabou
Já não há aquela bolha e saíste tal como entraste com um maço no bolso.
Desprotegida
Sim é assim que me sinto
Já chorei
Sim, muito, talvez mais do que pudesse imaginar. Apeteceu-me berrar e gritar, mas a voz não saía; tirar tudo do lugar e partir os objectos todos que estão na estante.
Apeteceu-me desaparecer por uns tempos, ficar sozinha, voltar aquele lugar que sempre foi o meu refúgio e sentir de novo aquela brisa, os pés a tocar na areia e o barulho das ondas.
Talvez seja ironia ou outra coisa qualquer, mas foi ali que nos conhecemos, que tudo surgiu, naquele meu lugar de anos, naquele meu aconchego, naquela tarde que tudo mudou e que para nós fica guardada.
Apeteceu-me entrar num comboio e ir directamente para a baixa do porto, não sei porque, apenas queria rodear-me de pessoas desconhecidas, ver caras e o movimento apressado de cada um, talvez entrar numa e outra loja. Não fazer nada, apenas sentir o movimento.
Sei que todos dizem que sou forte, que tenho uma personalidade que não é fácil mas insistente, que se aguenta nos obstáculos e que se já ultrapassei muita coisa também isto ultrapasso, agora não vou dizer que estou bem, que tudo está bem, mas também não vou fingir e dizer que tudo esta muito mal. As vezes queria chorar, deitar tudo cá para fora mas não consigo. Queria que as palavras saíssem melhores, mas não dá.
Sei tudo o que vivemos, tudo o que passamos e são esses momentos que recordo, são essas coisas que estão presentes no coração, talvez por isso não consiga chorar.
No fundo e pensando de uma forma racional foi o melhor, e por isso o aceito.
Melhor…
para mim, para ti, para nós,
para que a nossa amizade persista





