quinta-feira, 30 de outubro de 2008

.little things.


Desenhava-se uma noite igual a tantas outras, num qualquer café, e agora o lugar de todos os “cafés”. Mas as vontades trocaram-se e a noite desenhou-se naquele lugar de sempre, onde conversas se tiveram, segredos foram partilhados e vontades satisfeitas. Aquele lugar onde rindo ou chorando, há sempre um sorriso e um “olá” para tornar tudo melhor.

As conversas pouco variavam e ao fim de umas horas esgotava-se o tempo, mas hoje não. Tudo estava diferente ou então era apenas o desejo de voltar ali. Havia um “boa noite” e um sorriso espalhado nas faces de todos. Foi uma noite de reencontros, de risos e sorriso, conversas e brincadeiras, e pelo meio, aquele velho amigo que o tempo levou, restando apenas a memória. Um olá simultâneo de um sorriso e um beijo na testa, sem mais palavras trocadas. O suficiente para que tudo ficasse melhor. Nunca foi preciso falar, bastava a troca de olhares e tudo era compreendido. Mas o tempo fez-nos perder isso, não falamos mais e no entanto sei que me conheces bem, que quando um não está bem, o outro também não. As memórias vão-se perdendo com o tempo, ficar a restar apenas aquelas lembranças numa caixa colocadas, resta apenas os pequenos gestos que ficam marcados no coração. O tempo pode levar os momentos passados, pode apagar as memórias, pode ter-nos levado para longe nas conversas, e até terminado com parte da ligação que havia, mas uma amizade, por poucas conversas que hajam, nunca acaba. Podemos não falar, nem sequer partilhar um café, mas há simples gestos que dizem tudo, e o olhar que transmite o que se sente.


~ Recomeça se puderes / Sem angústia e sem pressa / E os passos que deres / No caminho duro do futuro / Dá-os em liberdade / Enquanto não alcances não descanses / De nenhum fruto queiras só metade/ E, nunca saciado / Vai colhendo / Ilusões sucessivas no pomar / E vendo / Acordado / O logro da aventura /És homem, não te esqueças / Só é tua a loucura /Onde, com lucidez, te reconheças

~ Miguel Torga


sábado, 18 de outubro de 2008

not easy


Já não gosto de folhas em branco, e ali estavam elas a olhar para mim. Rasguei-as, uma a um, à medida que cada gota de chuva ia caindo. Chove, como já não chovia há muito tempo. Já não consigo escrever, já não gosto de escrever, não consigo passar para o papel o que a mente pensa, o que o coração sente. Já não consigo formar frases sem que tudo pareça vazio. A chuva não se cala, olho para o lado de fora da janela e vejo as árvores abanarem. Não gosto da chuva e simultaneamente adoro-a, faz-me pensar , e no entanto não gosto de pensar, não quero pensar, não quero encontrar respostas para as minhas perguntas. Quero sentar-me e relembrar. Quero lembrar quando tudo era tão diferente, quando os gestos sentiam-se, quando as palavras ouviam-se, quando escrevia. Gosto de 'reviver' na minha mente todos aqueles momentos, todos aqueles pedaços que se vão desfazendo aos poucos. Mais uma folha em branco a olhar para mim, rasgo-a, tal como fiz com as outras. O livro que lia continua na estante, parado numa página qualquer há tanto tempo, que lhe perdi a conta. As páginas que escrevia perderam-se no tempo, perderam-se em pedaços no vazio que existe, tal como as gotas de chuva se perdem no chão quando caem.

~ a escrita perdeu-se no vazio



Esperei-te no fim de um dia cansado/ À mesa do café de sempre/O fumo, o calor e o mesmo quadro/Na parede já azul poente/Alguém me sorri do balcão corrido/Alguém que me faz sentir/Que há lugares que são pequenos abrigos/Para onde podemos sempre fugir/ Da tarde tão fria há gente que chega/E toma um café apressado/E há os que entram com o olhar perdido/À procura do futuro no avesso do passado

Enquanto espero percorro os sinais/Do que fomos que ainda resiste/As marcas deixadas na alma e na pele/Do que foi feliz e do que foi triste

O meu corpo no chão/O livro que eu li/O silêncio e a pele, as palavras sentidas/Os vestígios de ti/ As revistas no chão/Os copos vazios/Vestígios do tempo, as palavras trocadas/O calor e o frio/ Cada gesto que abraça/E o filme que eu vi/O que fica marcado e nunca se afasta/Os vestígios de ti