Desenhava-se uma noite igual a tantas outras, num qualquer café, e agora o lugar de todos os “cafés”. Mas as vontades trocaram-se e a noite desenhou-se naquele lugar de sempre, onde conversas se tiveram, segredos foram partilhados e vontades satisfeitas. Aquele lugar onde rindo ou chorando, há sempre um sorriso e um “olá” para tornar tudo melhor.
As conversas pouco variavam e ao fim de umas horas esgotava-se o tempo, mas hoje não. Tudo estava diferente ou então era apenas o desejo de voltar ali. Havia um “boa noite” e um sorriso espalhado nas faces de todos. Foi uma noite de reencontros, de risos e sorriso, conversas e brincadeiras, e pelo meio, aquele velho amigo que o tempo levou, restando apenas a memória. Um olá simultâneo de um sorriso e um beijo na testa, sem mais palavras trocadas. O suficiente para que tudo ficasse melhor. Nunca foi preciso falar, bastava a troca de olhares e tudo era compreendido. Mas o tempo fez-nos perder isso, não falamos mais e no entanto sei que me conheces bem, que quando um não está bem, o outro também não. As memórias vão-se perdendo com o tempo, ficar a restar apenas aquelas lembranças numa caixa colocadas, resta apenas os pequenos gestos que ficam marcados no coração. O tempo pode levar os momentos passados, pode apagar as memórias, pode ter-nos levado para longe nas conversas, e até terminado com parte da ligação que havia, mas uma amizade, por poucas conversas que hajam, nunca acaba. Podemos não falar, nem sequer partilhar um café, mas há simples gestos que dizem tudo, e o olhar que transmite o que se sente.
~ Recomeça se puderes / Sem angústia e sem pressa / E os passos que deres / No caminho duro do futuro / Dá-os em liberdade / Enquanto não alcances não descanses / De nenhum fruto queiras só metade/ E, nunca saciado / Vai colhendo / Ilusões sucessivas no pomar / E vendo / Acordado / O logro da aventura /És homem, não te esqueças / Só é tua a loucura /Onde, com lucidez, te reconheças
~ Miguel Torga


